domingo, fevereiro 20, 2005

Parece triste, mas não é

Li no Orkut (sempre lá!) e achei lindo.
É o retrato perfeito de um momento que acontece na vida de muita gente, também na minha, é claro...
O nome da música é Caso Encerrado, de Toquinho e Paulinho da Viola (assim diz o Google, pelo menos).

Quanto tempo não sei dizer
Tanta mágoa não sei contar
Só me lembro da solidão que passei
Quando vi meu castelo desmoronar
Muito embora eu esteja com saudades de um beijo
Minha vida é melhor assim
Esperando o momento de viver novamente
O amor que restou em mim

O que me lembra também uma história sobre se enfiar em um casulo que escutei um dia...e que por segundos me incomodou, até que me dei conta de que é no casulo que a lagarta se transforma em borboleta, cria asas, muda e prepara-se para um futuro que nem imagina. Quer imagem mais linda que essa? ;)

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Pontuando

Por muito tempo fui dois pontos:
É isso e pronto.
Não havia espaço para travessão.

- E o que houve, então?
- Cresci, amadureci, procurei responder meus pontos de interrogação.

Tive meus tempos de vírgula,
Parando para respirar
Entre cada movimento.
Coloquei alguns pontos finais.

Hoje sei que uma estória pode mudar totalmente de sentido
De acordo com a sua pontuação.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Foi um rio que passou em minha vida...

... e o meu coração se deixou levar. O samba - lindo - é da Portela, mas a Beija-Flor foi tricampeã. O que importa é que o carnaval acabou. E eu, não sei bem porquê, lembro de Drummond, dizendo:

"A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua..."


Talvez porque, para mim (por alguma programação inexplicável da minha cabeça), o ano sempre começa depois do meu aniversário. Que, este ano, caiu no carnaval. Portanto, é a hora de recomeçar.
Emblematicamente, passei o carnaval na cidade-berço da família, embalada pelo sentimento caloroso e confortável de carinho e amor existente entre pais, irmãos, cunhados, sobrinhos. Completei 35 anos muito longe das minhas expectativas para quando tivesse esta idade.
Mas, embora eu devesse estar na maior das crises a essa altura, estou tranquila, em paz e, ouso dizer, até feliz.
Quem é que precisa de expectativas realizadas? Graças a Deus, eu não. Vivo minha vida a cada dia, construindo o possível, curtindo o improvável e deixando meu coração me guiar por caminhos sempre novos e muitas vezes insuspeitos.
Minha alegria de viver é sem dúvida meu maior presente e minha maior aliada. ;)

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Sobre meus pais

Estava aqui pensando sobre o que escrever para meus pais, heróicas pessoas comuns que completam no próximo dia 05 de fevereiro 50 anos de casamento.
É difícil escrever sobre isso. Sobre o que falar? Sobre o amor? Sobre o que me ensinaram? Sobre o exemplo que deram ao realmente dar valor ao "contrato de casamento" que fizeram, como diz Stephen Kanitz em um artigo que escreveu para a Veja?
Aliás, eu poderia usar o Kanitz:
"Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia". Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles aprendem a conviver com os pais que têm. "

Mas acho que prefiro usar Adélia Prado. Quando leio Adélia, grande poetisa mineira, sempre me vem um quê de familiar. Deve ser porque Minas é mais que um pedaço de chão, é uma filosofia - com a qual alguém como eu, filha de mineiros criada em outro lugar, cresce embalada.
Mais do que isso, acho que Minas vem impressa em nossa alma, nos deixando com um jeito meio caladão, desconfiado, cercados por montanhas que servem como caminhos difíceis, mas não intransponíveis, à nossa real beleza...


De qualquer forma, sou feliz por eles, vendo suas implicâncias diárias, seus hábitos já arraigados, sua forma particular de conviver. Eles são uma dupla. Tenho a impressão de que se eles tivessem nascido um casal de pássaros, quando um se fosse, o outro pararia de cantar.
O amor está ali, nas pequenas coisas, o tempo todo, visível para os olhos mais atentos.

Acho que, afinal, só há uma coisa a dizer: meu pai, minha mãe, obrigada por me fazer acreditar no amor.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Saudosismo

Hoje assisti a reprise do "TV Pirata" que está passando no Multishow e fui tomada por uma onda de saudosismo. Será que as coisas eram mesmo melhores antigamente, no pavoroso intervalo do passado a que comumente chamamos de "no meu tempo"?
Sei que, apesar da produção e dos efeitos absolutamente toscos para os dias de hoje, o programa me pareceu melhor do que, por exemplo, um Casseta e Planeta. Com um humor mais inocente, por assim dizer.
Pode ser que seja miopia da minha parte, até acredito que sim. Mas ao mesmo tempo acho que é um humor escrachado, sim, sarcástico, irônico, mas menos desrespeitoso do que o que se pratica hoje em dia.
Aliás, creio que respeito é o que anda faltando em todas as áreas. Volta e meia me surpreendo com isso. Filhos e pais, alunos e professores, cidadãos e leis, policiais e leis, assaltantes e assaltados, pitboys e o resto da humanidade, motoristas e pedestres. Todo mundo acha que pode fazer e acontecer, ignora os direitos do(s) outro(s), desrespeita o próximo, a autoridade, a idade, a experiência, a lei.
Quando foi que isso aconteceu? Como chegamos a isso? Com certeza a impunidade, a corrupção, a situação sócio-econômica, o crescimento acelerado da população, a diminuição do emprego, tudo contribuiu para uma noção de que "quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro", lembrando de uma frase usada por um velho conhecido.
Mas daí a pular para a falta de educação no cotidiano, a falta de respeito no dia-a-dia, o estacionamento nas calçadas, não dizer mais "obrigada" e "por favor", insultar pessoas no trânsito, brigar covardemente de turma contra um...O que eu sei é que esse caminhão veio, nos atropelou e a gente nem viu a placa.
Às vezes me questiono se isso não começa em casa, com a culpa dos pais modernos que não sabem mais dizer não. Será que as pessoas ainda ensinam nos lares a dizer "obrigada" quando alguém abre a porta, ou pedir por favor e não "me dá!"?
Ai, comecei saudosista e terminei amarga.
É por isso que cada vez mais concordo com os que dizem que para melhorar o mundo, a gente deve começar melhorando a própria vida.
Amo os idealistas, os que vivem e lutam por idéias, os que muitas vezes sacrificam sua vida pessoal em busca de um bem maior. Não é o meu caso. Mas pelo menos eu digo obrigada, cumprimento, não jogo lixo na rua, tento não desperdiçar água e não assisto Big Brother.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Para refletir

Feliz Ano Novo
Martha Medeiros


Foi-se embora mais um ano, 12 meses, mais de 300 dias em que pagamos contas e procuramos lugar para estacionar. Um ano a mais de experiências vividas, um ano a menos de juventude. Um ano a mais de filmes de que gostamos, trabalhos que nos frustraram e pessoas com quem convivemos menos do que gostaríamos. Tempo consumido em chopes, estradas, telefonemas, suor, tevê e cama. Você envelheceu ou cresceu este ano?

Envelhecemos sentados no sofá, envelhecemos ao viciar-nos na rotina, envelhecemos criando os filhos da mesma forma como fomos criados, sem levar em conta algumas novas necessidades, outras formas de ser feliz. Envelhecemos passando creme anti-rugas no rosto antes de dormir, envelhecemos malhando numa academia, envelhecemos nos queixando da tarifa do condomínio e achando que todo mundo é estúpido, menos nós. Envelhecemos porque envelhecer é mais fácil que crescer.

Crescer requer esforço mental. Obriga a tomadas de consciência. Exige mudanças. Crescer é a anti-repetição de idéias, é a predisposição para o deslumbramento, é assumir as responsabilidades por todos os nossos atos, os bem pensados e os insanos. Crescer dá uma fisgada diária no peito, embrulha o estômago, tem efeitos colaterais. Machuca.

Envelhecer não machuca. Envelhecer é manso, sereno. Envelhecer é uma apatia, um não-desempenho, um deixa pra lá, vamos ver o que acontece. O que acontece é que você fica mais velho e se considerando tão sábio quanto era anos atrás, anos que passaram iguais, sabedoria que não se renovou.

Crescer custa, demora, esfola, mas compensa. É uma vitória secreta, sem testemunhas. O adversário somos nós mesmos, e o prêmio é o tempo a nosso favor. Feliz Ano Novo.


sábado, dezembro 11, 2004

Porque amo Paulo Leminski

"você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto"


"ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa"


"Esta vida de eremita
é, às vezes, bem vazia.
Às vezes, tem visita.
Às vezes, apenas esfria."


"podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano.

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano"


"Faça os gestos certos,
o destino vai ser teu aliado,
ouço uma voz dizendo
do fundo mais fundo do passado.
Hoje, não faço nada direito,
que é preciso muito mais peito
pra fazer tudo de qualquer jeito.

Ai do acaso,
se não ficar do meu lado."


ARTE DO CHÁ

ainda ontem
convidei um amigo
pra ficar em silêncio
comigo

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo


"quem me dera
até para a flor no vaso
um dia chega a primavera"


"esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem"


"a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome"


"tão doce, tão cedo,
tão já
tudo de novo vira começo"


"abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno"


"pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando"

segunda-feira, dezembro 06, 2004

O Teatro dos Vampiros

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
E desses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos.

Este é o nosso mundo
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos

Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.

Vamos lá tudo bem - eu só quero me divertir
esquecer, dessa noite ter um lugar legal prá ir
Já entregamos o alvo e artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.

Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei

Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir

Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.

Vamos lá tudo bem - eu só quero me divertir
esquecer, dessa noite ter um lugar legal prá ir
Já entregamos o alvo e artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

nada mais a dizer ;)

P.S. "Teatro dos Vampiros" é uma letra de música da Legião Urbana.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Lição

De tudo que me acontece
A cada novo dia,
Fica um gosto
(às vezes irreconhecível)
De sabedoria.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Bastante apropriado

Li isso no Orkut e achei muito bom...para lembrar sempre. Infelizmente não sei se é texto de alguém ou original da pessoa que postou.

Para mim os homens caminham pela face da Terra em fila indiana.
Cada um carregando uma sacola na frente e outra atrás.
Na sacola da frente, nós colocamos as nossas qualidades.
Na sacola de trás, guardamos os nossos defeitos.
Por isso, durante a jornada pela vida, mantemos os olhos fixos nas virtudes que possuímos, presas em nosso peito.
Ao mesmo tempo, reparamos impiedosamente nas costas do companheiro que está adiante, em todos os defeitos que ele possui.
E nos julgamos melhores que ele, sem perceber que a pessoa andando atrás de nós está pensando a mesma coisa a nosso respeito.

Mude, ainda dá tempo, e não esqueça...

quinta-feira, novembro 18, 2004

Não importa no que você acredita...

Anteontem recebi uma mensagem com este texto:

As coisas acontecem exatamente quando devem acontecer.

Leia a primeira linha com atenção!
Se Deus trouxe isso a você, Ele lhe trará algo através disto!
Momentos felizes, louve a Deus.
Momentos difíceis, busque a Deus.
Momentos silenciosos, adore a Deus.
Momentos dolorosos, confie em Deus.
Cada momento, agradeça a Deus.

O texto me disse algo, porque acredito em Deus. Mas acho que mesmo para quem não acredita em nada a não ser em si próprio e na própria vontade e existência, ele diz algo. Diz que é preciso acreditar que as coisas acontecem por algum motivo. Mesmo que esse motivo seja a nossa vontade, a nossa fé, ou o nosso esforço. Basta confiar e direcionar o pensamento pra isso.

Eu acho que isso é verdade. Creio que a persistência e a atitude em relação às coisas são determinantes na vida de muitas pessoas.
Talvez isso seja a coisa que mais tento mudar em mim, ou que tento fazer evoluir: minha atitude em relação às coisas. Não é nada fácil. Mas pelo menos tenho a persistência para não desistir.


sábado, novembro 06, 2004

Verde é a cor da esperança

Persistência

Quando nada parece ajudar, olho o cortador de pedras martelando a rocha talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. Porém, na centésima primeira, a pedra se abre em duas e sei que não foi aquela martelada que conseguiu, mas todas as que vieram antes.

Jacob A. Riis

segunda-feira, outubro 25, 2004

Há tempos não escrevo...

E o mais absurdo é que a intenção do blog era mais ou menos me obrigar a escrever... no entanto, nem sei bem o porquê, não tenho tido a paciência necessária para isso.
Mas a cabeça continua pensando em mil coisas ao mesmo tempo! Talvez seja esse o problema, dispersão.
De qualquer forma, creio que uma cabeça ativa - mesmo que turbulenta - será sempre melhor que uma adormecida, inerte, fugitiva. E ativa é meio caminho andado para produtiva. Sim, nessas horas preciso ser otimista.


DESEJO QUE DESEJES
Martha Medeiros


Eu desejo que desejes ser feliz de um modo possível e rápido, desejo que desejes uma via expressa rumo a realizações não utópicas, mas viáveis, que desejes coisas simples como um suco gelado depois de correr ou um abraço ao chegar em casa, desejo que desejes com discernimento e com alvos bem mirados.
Mas desejo também que desejes com audácia, que desejes uns sonhos descabidos e que ao sabê-los impossíveis não os leve em grande consideração, mas os mantenha acesos, livres de frustração, desejes com fantasia e atrevimento, estando alerta para as casualidades e os milagres, para o imponderável da vida, onde os desejos secretos são atendidos.
Desejo que desejes trabalhar melhor, que desejes amar com menos amarras, que desejes parar de fumar, que desejes viajar para bem longe e desejes voltar para teu canto, desejo que desejes crescer e que desejes o choro e o silêncio, através deles somos puxados pra dentro, eu desejo que desejes ter a coragem de se enxergar mais nitidamente.
Mas desejo também que desejes uma alegria incontida, que desejes mais amigos, e nem precisam ser melhores amigos, basta que sejam bons parceiros de esporte e de mesas de bar, que desejes o bar tanto quanto a igreja, mas que o desejo pelo encontro seja sincero, que desejes escutar as histórias dos outros, que desejes acreditar nelas e desacreditar também, faz parte este ir-e-vir de certezas e incertezas, que desejes não ter tantos desejos concretos, que o desejo maior seja a convivência pacífica com outros que desejam outras coisas.
Desejo que desejes alguma mudança, uma mudança que seja necessária e que ela não te pese na alma, mudanças são temidas, mas não há outro combustível para essa travessia. Desejo que desejes um ano inteiro de muitos meses bem fechados, que nada fique por fazer, e desejo, principalmente, que desejes desejar, que te permitas desejar, pois o desejo é vigoroso e gratuito, o desejo é inocente, não reprima teus pedidos ocultos, desejo que desejes vitórias, romances, diagnósticos favoráveis, mais dinheiro e sentimentos vários, mas desejo, antes de tudo, que desejes, simplesmente.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Só o que está morto não muda

É um texto que circula há tempos pela internet, mal atribuído à Clarice Lispector (de quem é apenas a frase final, usada pelo autor no poema). Sempre me serve de inspiração...


Mude
Edson Marques

Mas comece devagar,
porque a direção é mais
importante que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.

Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.

Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
O novo lado, o novo método,
o novo sabor, o novo jeito,
o novo prazer, o novo amor.
A nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira, de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros, outros teatros,
visite novos museus.

Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.

Se você não encontrar
razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer
uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda!

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!!

quarta-feira, outubro 13, 2004

Maitena

Adoro Maitena, a cartunista argentina. Seria cartunista a melhor definição? Nem sei. Ela faz tiras para jornais e revistas (aqui, pelo que sei, pode ser lida na revista Claudia), que foram reunidas na maravilhosa série "Mulheres Alteradas". Para quem é mulher de 30 e poucos (como eu) ou de 40 e poucos (como ela), é imperdível. Para os homens também, eu acho. Os de bom humor, é claro...
O bom humor e a inteligência com que retrata nosso dia-a-dia (das casadas, descasadas, solteiras, com filhos ou sem) vão direto ao ponto. Me atingem e me fazem rir, sempre.
Tenho também um livro que reúne outra série, chamada "Superadas", publicada diariamente no La Nación.
Estava relendo (é sempre uma delícia!) e me deparei com esta pérola, dúvida do tipo "perguntas que não querem calar" que todas as mulheres se fazem (com tradução livre do espanhol):

Homem: "Não consigo entender como as mulheres tem, por exemplo, medo de baratas, aranhas e ratos e, no entanto, conseguem colocar cera quente sobre a pele..."
Mulher: "Bom, se é assim, eu não entendo como alguns homens podem tomar decisões que envolvem milhões de dólares, afetam milhares de pessoas e países inteiros... e, por outro lado, não conseguem deixar sua mulher!"

E depois ainda dizem que homens e mulheres não pensam diferente! Ah, pensam, se pensam...

quarta-feira, outubro 06, 2004

Hoje quis lembrar dessa frase

“Life is no straight and easy corridor along which we travel free and unhampered, but a maze of passages, through which we must seek our way, lost and confused, now and again checked in a blind alley.

But always, if we have faith, God will open a door for us, not perhaps one that ourselves would ever have thought of, but one that will ultimately prove good for us.”

A. J. Cronin


Coloco as coisas aqui, às vezes, e penso se devo ou não comentar... acho que frases falam por si mesmas, e a interpretação deve variar de pessoa pra pessoa, de acordo com o momento e com a forma em que são atingidas por elas.
Essa frase veio pra mim em um momento particularmente difícil da minha vida, e eu me pus a olhar pra ela todos os dias, de forma a fortalecer a minha fé. Hoje, este momento ultrapassado, ela não me parece mais uma mensagem de esperança e fé, mas apenas - como se isso pudesse ser apenas! - um descritivo do que é mesmo a vida, cheia de momentos que devemos viver e de oportunidades que não enxergamos; e de como somos (de uma certa forma) despreparados para ela, embora muitos de nós se empenhem em preparar-se e defender-se do que é indefensável. Para mim, essa é a essência de tudo - mesmo perdidos e confusos, o que importa é viver.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Thunder only happens when it's raining

Longe de tudo, longe de você

Ele desceu do ônibus pensando nas compras do supermercado.
Ela vinha pela calçada olhando para o chão e pensando na vida.
O esbarrão inevitável aconteceu porque assim tinha que ser.

- Me desculpe! – disse ele, ajudando-a a se reequilibrar.
- Tudo bem... – disse ela, pensando “Mas que homem distraído!”

Ele pensou: “Ela é bonita!”, mas ao vê-la novamente de pé seguiu seu caminho, refazendo mentalmente a lista do supermercado.
Ela ficou parada por uns dois segundos, ajeitando a roupa. Depois voltou a andar, pensando: “Onde eu estava mesmo? Ah, é. Será que algum dia vou esbarrar no meu príncipe encantado?”

sábado, outubro 02, 2004

Hoje achei essa poesia:

Castelo de Cartas
Pedro Tostes

comecei a construir o meu
castelo de cartas
errei
e ele caiu

pus carta sobre carta novamente
veio o vento
e o derrubou

respirei fundo e comecei de novo
alguém apareceu
e o destruiu

e fiz tudo mais uma vez...

foi então que me perguntaram:
por que insiste?
não percebe que é só um
castelo de cartas
e que irá cair novamente?

eu respondi:
eu não sei...
mas algo me diz que a
beleza
está em
construir


Se eu tivesse que escrever sobre isso, não faria melhor... é esse exatamente o meu sentimento a respeito!
Não é sobre não cair, é sobre aprender a levantar. É sobre querer levantar de novo.
É sobre ter paciência, persistência e fé. Porque não importa quantas vezes o castelo vai cair: eu sei que posso levantá-lo novamente.

terça-feira, setembro 28, 2004

Há muito tempo atrás

Perdi meu amor numa esquina da vida e receio não encontrá-lo mais.
Eu não saberia achar e, mais que isso, não saberia nem procurar.
Talvez não o reconheça. Talvez não saiba mais - a ele, amor - amar.
Perdi meu amor numa esquina da vida, há muito tempo atrás.
Pobre amor! Triste e sozinho, provavelmente sentiu-se inútil, incapaz.
(quem sabe até mesmo tenha tentado voltar)
Sim, perdi meu amor: eu o deixei por aí, esquecido em algum lugar.

O que é feito de um amor que não tem por quem chorar?
Pobre amor, sem objeto a amar!
Mas nem foi porque eu quis, foi o que aconteceu.
Perdi meu amor numa esquina da vida - e agora ele, infeliz, não sabe o que fazer.
Aliás, nem eu.

segunda-feira, setembro 27, 2004

A pedidos...

Pedaços de Fernando Pessoa (e seus heterônimos):

Para Ser Grande

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


"Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído."


" Se depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus."


"Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!."


"O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos.
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha pra mim como um girassol com a cara dela no meio."


"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."


E, por fim,

"Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena."