segunda-feira, maio 30, 2005

Procurar o quê

O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.
Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.
Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.
Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas folhas de bananeira, nas gretas do muro, nos espaços vazios.
Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.
Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.
Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.
Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino cor, forma, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível pra todo mundo, menos pra mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.


Carlos Drummond de Andrade - Esquecer para Lembrar
Em tempo: Drummond é outro dos meus poetas prediletos. Também merecerá sua seleção por aqui, qualquer dia desses.

domingo, maio 29, 2005

Aprenda a calar

Esse blog não recebe um post há mais de duas semanas. Acho que eu não estava lidando bem com as palavras neste período. Mas, agora que voltei a postar, preciso (re)começar com este texto. Voltei a ele hoje, merecidamente e um pouco tarde demais. Que sirva de útil lição no futuro. Pra variar um pouco, não sei o autor.

Aprenda a silenciar a palavra que sai gritada de seus lábios, ferindo a sensibilidade alheia e lhe deixando à mercê das companhias inferiores.
Aprenda a calar...
Aprenda a silenciar a palavra suave, mas cheia de ironia que sai de sua boca ridicularizando, humilhando a quem se dirige e que lhe intoxica, provocando a dor de estômago, as náuseas ou a enxaqueca.
Aprenda a calar...
Aprenda a silenciar o murmúrio que sai entre dentes, destilando raiva e rancor e atingindo o alvo, que fere como punhal ao tempo em que lhe fragiliza a ponto de não se reconhecer, de se assustar consigo mesmo.
Aprenda a calar...
Aprenda a calar o pensamento cruel que lhe passa na mente e que, por invigilância, se detém nele mais do que deveria. Você se assustaria se pudesse ver sua máscara espiritual distorcida.
Aprenda a calar...
Aprenda a calar o julgamento que extrapola o que vê e o que sabe, levando-o a conjeturar sobre o outro, o que não sabe e não viu, plasmando idéias infelizes que são aproveitadas pelos opositores daquele que é julgado.
Aprenda a calar...
Aprenda a calar todo e qualquer sentimento indigno, zelando pelas nascentes do seu coração, para que não macule e não seja maculado.
Aprenda a vigiar os sentimentos para que cada dia, mais atento e vigilante, saia da esfera mesquinha a que se aprisiona voluntariamente, e possa alçar vôos mais altos e sublimes.
Aprenda a calar...
E, enquanto não consegue deixar de gritar, falar, murmurar, pensar cruelmente e julgar, insista em orar nesses momentos. Nem que as frases lhe pareçam desconexas e vazias de sentimento.
Insista na oração até que, um dia, orará não com palavras nem pensamentos, mas todo você será sentimento, amor, amor puro e verdadeiro em ação, dinâmico, envolvendo os outros e a si mesmo, verdadeiro discípulo que conseguirá ser.
Aprenda, definitivamente, a calar!


sexta-feira, maio 13, 2005

Quase nada...

Lista de desejos

Uma casa pra morar, minha, pra ficar sozinha - ou acompanhada - quando bem quiser;
Um amor que também me ame;
Uma viagem pra fora do Rio, sempre que possível, pra me fazer sentir saudades de casa;
Um sorriso de um filho que ainda precisa ser feito;
Um mundo mais justo;
Amigos à minha volta o ano inteiro;
Menos violência e mais sorrisos;
Uma fonte de renda, porque ninguém vive de brisa, nem eu!; e
"Um prato fundo pra toda fome que há no mundo", como canta o Zeca Baleiro...

quarta-feira, maio 11, 2005

Uma poesia para o dia

Com Licença Poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

segunda-feira, maio 09, 2005

Relacionamentos

Resolvi postar aqui um texto que escrevi no orkut e fiquei com medo de acabar perdendo.
Gostei da forma como me coloquei nele, acho que está bem coerente com o que eu penso sobre relacionamentos.

Acho que, por uma questão de cultura e velhos hábitos de criação, o homem espera uma mulher companheira, que lhe dê apoio, que esteja ao lado dele e que viva a vida dele.
Acho que os relacionamentos hoje estão mais difíceis porque as mulheres passaram a questionar esse papel, e aprenderam a querer também. Bem diferente da geração e da criação da minha mãe, que passou a vida cuidando dos filhos e do marido, sem nunca ter trabalhado, por exemplo. Hoje as mulheres querem apoio pra criar os filhos, para fazer seus mestrados, para desenvolver suas carreiras...querem ter direito às próprias escolhas e ter apoio para elas.
Muitos homens já vivem essa nova realidade, e conseguem dar e receber na mesma medida. Mas dá pra perceber por aí, principalmente nas atitudes dentro dos relacionamentos, que no DNA de vários ainda está impresso o papel do "chefe da casa".
Eles querem uma mulher companheira, mas não sabem ser companheiros também. Querem alguém que se encaixe na vida deles, apenas. E muitas de nós, mulheres, com o passar dos anos, cansadas de tanto ceder, estamos chegando nesse ponto também, de querer alguém que se encaixe.
O que eu sinceramente acho que não funciona para nenhum dos lados...
Relacionamento tem que ser uma via de mão dupla...bom para os dois, em que as duas pessoas estejam dispostas a ceder, a aprender e a crescer juntas, compartilhando e apoiando uma à outra.
Há uma sutil diferença entre pessoas que querem encontrar alguém e pessoas que querem um relacionamento. Vale a pena prestar atenção nisso...tem gente que manifesta claramente a intenção de receber, mas não a de doar.


Eu não quero cair nessa armadilha de só querer e exigir. Até porque gostar de fazer pessoas felizes, de fazer coisas pelos outros, é algo impresso no meu DNA. Mas ao mesmo tempo não estou mais tão a fim de ceder como já fiz no passado. Creio que, como eu, várias mulheres se sentem assim: está na hora de receber também.
Creio que devemos buscar o equilíbrio em um relacionamento, como em todas as áreas da vida.
Mas eu busco, principalmente, sentir no outro - antes de qualquer coisa - a capacidade de amar. E isso está no dia-a-dia, nas atitudes com a família, com os amigos, com os conhecidos e com os desconhecidos. Não está em um beijo caloroso ou em um abraço apertado. Não está nas tiradas inteligentes ou no sorriso bonito (dois aspectos que prezo muito, aliás).
Talvez este seja um bom conselho. Sinceramente, não sei. Imagino o que posso dar e me vejo no direito de escolher o que esperar.
Torço para achar alguém que queira a mesma coisa que eu, ao mesmo tempo. Isso com certeza será algo bom, seja que espécie de relacionamento for. :)

domingo, maio 08, 2005

Dia das Mães


Não dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras?

sexta-feira, maio 06, 2005

E se...

Hoje li este texto do Luiz Fernando Veríssimo, um dos meus autores prediletos. Resolvi postar aqui por causa do tema. Não é à toa que eu nunca tenho esse tipo de pensamento, o famoso "e se...". Acredito que é totalmente inútil ficar pensando em como algo teria sido, embora como exercício de imaginação seja interessante - como prova o LFV com esse texto.

Versões 1/2

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número ("Unzinho e eu ganhava a sena acumulada"), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito "sim", dito "não", ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste...
Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz - aliás, o nome do bar é "Imaginário" - sentou um cara do meu lado direito e se apresentou.
- Eu sou você se tivesse feito aquele teste no Botafogo. E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.

Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até um dia...
- Eu sei, eu sei... - disse alguém sentado do outro lado dele. Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um "herói", me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude mais ser goleiro. Não pude mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INPS e só faço isso: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante...
- Ele chutaria para fora.
Quem falou foi outro sósia nossa, ao lado dele, que em seguida se apresentou.

- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio...
- E o que aconteceu? - perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?
- Você...
- Morri com 28 anos.

Bem que tínhamos notado a sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo...
- Nem sair do gol naquela bola...
- E ter levado o chute na cabeça...
- Foi melhor - continuei - ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado...
- Você deve estar brincando - disse alguém sentado à minha esquerda.Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.

Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você? - perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E?
Ele não respondeu. Só fez um sinal, com o dedão virado para baixo.

terça-feira, maio 03, 2005

Mario Quintana

Corrigindo a tremenda injustiça de não ter Quintana por aqui até hoje!

DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo de teu amigo
Possui amigos também.

TROVA
Eu agora - que desfecho!
Já não penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

AMIZADE
Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

AMOR
Quando o silêncio a dois se torna cômodo.

Depois de cada ilusão perdida,
que extraordinária sensação de alívio!

DESPEDIDA
Ó mocidade, adeus! Já vai chegar a hora!
Adeus, adeus...Oh! Essa longa despedida...
E sem notar que há muito ela se foi embora,
Ficamos a acenar-lhe toda a vida...

OUTRA OPORTUNIDADE
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente...
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

OS CHATOS
Existem duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos
E os amigos, que são os nossos chatos prediletos.

Buscas a perfeição? Não sejas vulgar...
A autenticidade é muito mais difícil.

AGORA
Em que mundo? Em que outro mundo vim parar?
Agora, apenas a tua voz nas minhas veias corre...
e o teu olhar ainda ilumina meu quarto.

MOVIMENTO
Nossos gestos eram simples e transcedentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário.

ELEGIA
Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários...
Se houvesse alguém andando sozinho...e bastava!
São os passos
- são os passos que fazem os caminhos.

SEMPRE QUE CHOVE
Sempre que chove
Tudo faz tanto tempo...

O vinho melhor é aquele que tu bebes calmamente na
companhia do teu mais velho e silencioso amigo.

Se um outro mundo existe, nada adiantaria ires para lá,
porque, como aqui, nada compreenderás...

segunda-feira, maio 02, 2005

Só pra deixar uma frase

"No one has a right to consume happiness without producing it." - Helen Keller

No nosso idioma: ninguém tem direito a consumir felicidade se não produzi-la.
Acho que isso serve pra muito mais coisas. Às vezes é muito mais fácil pedir do que fazer.
Mas, falando de felicidade especificamente, vejo isso em muitas pessoas. Parece tão mais fácil reclamar da infelicidade do que simplesmente tentar ser feliz!
É algo a se pensar. Até eu de vez em quando caio nessa armadilha...

sexta-feira, abril 29, 2005

Puxando a brasa

Em geral não sou muito de fazer propaganda dos meus feitos. Mas aproveitando que estou passando por uma fase "gente grande", hoje vou fazer.
Depois de muitos e muitos e muitos anos (nem sei mais quantos), comecei a colocar a poesia pra fora das gavetas. Já mandei pra concurso, já fui selecionada em duas antologias, e agora comecei a publicar em um site literário chamado "A Garganta da Serpente".
Quem quiser visitar pode clicar aqui: www.gargantadaserpente.com/toca :)

quarta-feira, abril 27, 2005

Duas dúzias de coisinhas à toa que deixam a gente feliz

Esse é o nome de um livro para "crianças" que tenho, mas que guardo em um lugar especial na minha estante e ao qual recorro sempre.
O livro é de Otavio Roth e diz apenas (?!) o seguinte:

Pintinho saindo do ovo
Começar caderno novo
Alegria do meu povo
Espaguete al dente
Um pé de meia quente
Melancia sem semente
Acordar com cafuné
Visita pela chaminé
Estalar os dedos do pé
Queijinhos vindos da França
Menina loira com trança
Dom Quixote e Sancho Pança
Barquinho na enxurrada
Queijo com goiabada
Beijinhos da namorada
Joaninha no nariz
Respingo de chafariz
Fazer um amigo feliz
Estrelinha piscando no céu
Melar o dedo no mel
Abrir clipe de papel
Alguém sempre por perto
Um saco de bombom aberto
Uma rima que deu certo

São tantas as pequenas coisas que estão presentes no nosso dia-a-dia e às quais muitas vezes esquecemos de dar valor...
Passamos todos por momentos muito difíceis em nossas vidas, em que a esperança se esvai e achamos que tudo dará errado!
É por isso que tenho esse livro: para me lembrar que a felicidade está nas pequenas coisas, em momentos, e que às vezes só é preciso mudar a direção do olhar para enxergar isso.
Eu acrescentaria a essa lista coisas como sentir cheiro de café fresquinho no meio da tarde (ah! ter mãe em casa é um luxo só!), ouvir gargalhada de criança, reencontrar um velho amigo, rir sozinha lendo um bom livro... e tantas outras coisas!
Que tal cada um de nós fazer a sua listinha? É um bom exercício para perceber como são muitas as coisas que amamos e que, como diria aquela propaganda, não têm preço! :)

terça-feira, abril 19, 2005

Tudo a ver

Hoje recebi este texto e achei que tem tudo a ver!
Adoraria tê-lo escrito, mas como não fui eu, dou o crédito:
Ele é da Cristiane Adami Perozzo, que pode ser lida no http://pretensoes.zip.net/.

Bálsamo

Às vezes, você não quer uma aparelhagem nova de som e vídeo de última geração. Quer apenas que alguém lhe mande flores. Não importa se elas murcham logo – até isso acontecer, o perfume inebria, a beleza traz boas recordações, o toque de veludo conforta.
Nem sempre você quer que lhe desejem coragem, ousadia, iniciativa. É bom ouvir que, independente de qual for sua decisão, alguém lhe apoiará, desde que a escolha seja sua, e não fruto de conveniências ou de expectativas dos outros.
Às vezes, você só quer sentar no colo, sentir o calor de um abraço apertado, repousar a cabeça sobre um ombro, e chorar. Sem dar explicações ou motivos, apenas soluçando mágoas, sentindo que as lágrimas riscam seu rosto, mas que alguém as contém com um movimento de mão.
Às vezes, você só quer abrir a janela, gritar para o mundo e perder o controle, pois não é fácil – nem saudável – manter uma postura de perfeição. De vez em quando, você precisa de tempo para nada, para apoiar as pernas no sofá e ler, ouvir música, ou fingir que conversa com o teto.
Às vezes, você quer que seus pais não façam cobranças, que deixem você ser adolescente de novo, porque a vida adulta não é fácil para ninguém - e você sente que não vai suportar o peso das pressões a todo momento. Nem sempre a dor é aprendizado. Às vezes, você gostaria de ter aprendido apenas lendo nos livros, ou ouvindo a história de alguém. Sem precisar se machucar, porque as cicatrizes permanecem para sempre. E mais do que a lembrança da superação, elas são, também, a lembrança de momentos tristes, e que nem sempre curam-se por inteiro.
De vez em quando, você quer ficar sozinho, mas nunca solitário. Não quer a companhia vazia da televisão, enquanto faz o café na cozinha. Às vezes, você quer sorrir, mas não sabe como. E deseja apenas que alguém lhe ensine, sem ter que fazer anos de terapia para encontrar o próprio sorriso no seu interior.
Às vezes, você não quer usar palavras complicadas, e nem palavras óbvias – simplesmente não quer palavras. Quer apenas dizer tudo e mais um pouco com um olhar, um apelo, uma súplica.
Às vezes, você não quer ouvir mensagens de consolo, nem a piadinha de que tudo é passageiro – menos o motorista e o cobrador. Quer ficar em silêncio, ouvir a própria pulsação, sentir o coração batendo – e, de preferência, por alguém que não seja você mesmo.
Porque nem sempre você acredita naquela história de que precisa encontrar sua cara-metade – mas, às vezes, você cansa de tentar ser auto-suficiente, e quer alguém a seu lado, para dividir emoções, apoiar, e ser apoiado.
Às vezes, você é um pouco intolerante ou egoísta – e gostaria de não se culpar por isso, porque todo ser humano tem suas fraquezas. Às vezes, você quer fugir para qualquer lugar, e aí descobre que qualquer lugar é sempre aqui. Em você mesmo. E não adianta fugir, porque a fuga é um bálsamo passageiro – mas, às vezes, necessário.
Em um dia, você ganha uma aparelhagem de som e vídeo de última geração. No outro, você recebe flores.

segunda-feira, abril 18, 2005

Marcas do que se foi

Este ano quero paz no meu coração
quem quiser ter um amigo
que me dê a mão
o tempo passa e com ele caminhamos todos juntos
sem parar nossos passos pelo chão vão ficar
marcas do que se foi
sonhos que vamos ter
como todo dia nasce novo em cada amanhecer (uôô)

A título de informação, quem cantava isso era uma banda chamada "Os Incríveis". Lembro que aqui em casa tinha um compacto com eles cantando o Hino Nacional, mas não sei o que tinha no outro lado. Ai, acabo de denunciar a idade horrivelmente com essa frase...rsrsrs
Bom, mas isso não tem a menor importância. Nem a minha idade, nem o autor da música.

Por que esta música está aqui hoje? Acho que me lembrei dela por causa do final de semana entre amigos, aqueles amigos de muito tempo que já tem o seu lugarzinho cativo no meu coração.
Já vivemos muita coisa juntos e, graças a Deus, isso ao que parece não congelou ninguém. Estamos todos sempre em mudança e crescimento, todos ainda com muito o que aprender.
Em todo esse tempo, muita coisa aconteceu e muita ainda está para acontecer.
Todos passarão por situações e momentos que os outros não entendem, simplesmente porque não estão vivendo a mesma situação e porque não são pessoas iguais. É simples assim. Todos temos medo, todos temos coragem, todos temos dúvidas. O que nos difere são apenas os momentos de nossas vidas em que te(re)mos que lidar com isso.

A minha vida mudou totalmente nos últimos anos. Eu mudei muito. E movimento gera movimento. Por isso, em um certo momento, achei que isso ia envolver pessoas também. E acho até normal que isso aconteça, porque acontece em qualquer relacionamento, seja ele de amor ou amizade.

Por que não é fácil aceitar as mudanças? Por que é preciso julgar, rotular e opinar em vez de simplesmente aceitar, tentar compreender e apoiar?
Quando penso nisso, vejo o quanto é difícil para nós, seres humanos, lidar com a mudança. Todo mundo quer se manter na sua "zona de conforto", seguro e tranquilo, muitas vezes se recusando a crescer.
É verdade, crescer dói.
E às vezes nós crescemos e achamos que os outros ficaram "parados" no tempo, simplesmente porque a eles não se apresentou nenhuma oportunidade de crescimento. E ela não vem só pela dor (embora seja mais comum), vem também pela alegria (como ter um filho, por exemplo).
Mas se nós estamos "parados", isso não deve nos impedir de olhar o crescimento do outro com alegria, e não com receio. De compartilhá-lo e apoiá-lo, e não julgá-lo. Da mesma forma, se nós estamos em movimento, não temos que olhar para quem está "parado" julgando-o errado ou com medo, ou mesmo invejando seu conforto.
Simplesmente devemos aceitar as pessoas como elas são e respeitar os momentos que vivem, principalmente se somos amigos.

Neste final de semana acho que resgatei algo. Ainda não sei bem o quê.
Vi claramente o quanto já ficou pra trás, e quanta coisa mudou em mim e na minha vida.
Enxerguei novamente a minha "zona de conforto" e até sonhei com ela, embora perceba que ela mudou sua configuração agora.
Mas voltei feliz. Meus amigos estão aqui em volta, vivendo cada um a sua própria história, próximos de mim. O tempo passa e caminhamos todos juntos, ainda. Cada qual com seu ritmo de passadas, mas prontos para se dar as mãos, se assim for necessário. E isso, sim, é o que importa. :)

domingo, abril 10, 2005

Faltam-me palavras

Faltam-me palavras. Busco-as em todos os cantos da casa, e não acho.
Provavelmente não se satisfazem com o uso que delas faço.
Devem sair à procura de mentes mais férteis, escritores de renome e de farta produção.
À nós, pobres pretensiosos poetas, escritores sem inspiração, só resta o improviso.
Faltam-me palavras. Busco e invento palavras novas, e delirante escrevo sem motivos.
Faltam-me palavras e eu já não ligo. Embarco na narrativa e perco a noção do perigo...
Faltam-me palavras e me sobram emoções.
Que bom, ainda estou viva.

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Ando precisando renovar minha fé no amor... Só por isso, lá vai:

Love is a many splendored thing
It's the April rose that only grows
In the early Spring
Love is nature's way of giving
A reason to be living
The golden crown
That makes a man a king

Once on a high and windy hill
In the morning mist, two lovers kissed,
And the world stood still
Then your fingers touched my silent heart
And taught it how to sing
Yes, true love
Is a many splendored thing

quarta-feira, abril 06, 2005

Achei lindo

"Se você realmente quer desfrutar a vida em toda a sua riqueza, tem que aprender a ser incoerente, a ser coerentemente incoerente. Ser capaz de ir de um extremo ao outro - às vezes profundamente enraizado na terra e às vezes voando alto no céu. Às vezes fazendo amor e às vezes meditando. E então, aos poucos, o seu céu e a sua terra ficarão cada vez mais próximos e você se tornará o horizonte em que eles se encontram."

Osho - Faça o Seu Coração Vibrar, Ed. Sextante

Li sobre Osho pela primeira vez na "Vida Simples". Então fui fuçar a internet e descobri este site: www.osho.com . Posso dizer sobre Osho, apenas, que ele é considerado um líder espiritual, mas pra lá de polêmico. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre suas idéias, pode navegar pelo site, que tem versão em português.

quinta-feira, março 31, 2005

When You Wish Upon a Star

Ned Washington/Leigh Harline

When you wish upon a star
Makes no difference who you are
Anything your heart desires
Will come to you


If your heart is in your dream
No request is too extreme
When you wish upon a star
Like dreamers do

Fate is kind
She brings to those who love
The sweet fulfillment of
Their secret longing

Like a bolt out of the blue
Fate steps in and pulls you through
When you wish upon a star
Your dream comes true


Hoje desencavei este CD, The Stonewall Celebration Concert, só com músicas americanas gravadas pelo Renato Russo. Embora essa música não seja a minha predileta (é "Old Friend", um espetáculo de letra sobre amizade), essa foi a letra que dessa vez "saltou" aos meus ouvidos.

(um parênteses: voltei a ouvir muita música. A música andava meio ausente da minha vida, me acompanhando apenas no carro. Até porque eu só sei dirigir com música, cantando junto e às vezes batucando qual uma louca no volante. Já paguei muito mico...aliás, se você também é assim e está no orkut, entre na comunidade "Sim, eu dirijo cantando" e verá que nós somos muitos!)

Fé e esperança. Acreditar nos nossos desejos: é assim que chegamos lá. Pra quem prefere Paulo Coelho, "quando você quer muito alguma coisa, todo o universo conspira a seu favor". É a mesma coisa. Como no filme "Peixe Grande", em que se fala sobre a história do peixe dourado que poderia crescer mais se criado fora do aquário.
Pensando sobre o assunto, descobri que não fui criada para voar alto. Não aprendi a ter sonhos grandiosos. Na minha criação, acho que o pensamento embutido sempre foi mais o famoso "quanto maior a altura, maior o tombo". Nada de grandes bravatas ou auto-confiança exacerbada.

Mas uma coisa eu sei: nunca é tarde pra se aprender algo novo. É sempre possível mudar o rumo, trocar de objetivos, criar novos sonhos. Basta querer.
Há tempos recebi uma frase de Santos Dumont que estava perdida aqui nas minhas coisas, e fica de presente para todos nós: "Não se espante com a altura do vôo. Quanto mais alto, mais longe do perigo. Quanto mais você se eleva, mais tempo há de reconhecer uma pane. É quando se está próximo do solo que se deve desconfiar."

quarta-feira, março 23, 2005

Vida Simples

Vida Simples é a revista que eu assinaria, se tivesse grana sobrando para assinar uma revista. (a propósito: não tenho motivo algum para fazer esta propaganda gratuita, além de realmente gostar da revista.)

Sobre o que ela é? Sobre respeito, amor, solidariedade, cultura, espiritualidade, meio ambiente, responsabilidade social, saúde, educação, alimentação, atitudes. Ou seja, sobre tudo. As matérias e os artigos são variados, mas o objetivo final é um só: falar sobre uma vida melhor para todos nós, um mundo melhor. Não à toa, seu slogan é: Para quem quer viver mais e melhor.

E assim ela mostra vários exemplos de coisas bem feitas nesse sentido e nos ensina como ser melhores a cada dia, passando por todos os aspectos da vida, desde relacionamento até alimentação. Isso tudo numa revista bonita, clean, com uma diagramação nota dez (pelo menos para o meu gosto - eu sei, gosto não se discute).

Enfim...esse não é exatamente um post típico deste blog, mas achei que devia registrar. Até porque fiquei muito feliz de ter comprado a revista deste mês, depois de um bom tempo sem comprar. Eu me peguei sorrindo lendo a revista, e achei isso o máximo. Quem dera tudo que a gente lesse fosse assim... ;)

sábado, março 19, 2005

Ponto final

Às vezes a gente precisa colocar um ponto final nas coisas.
Acho incrível como conseguimos encompridar sentimentos e pensamentos com a maior facilidade, como se fôssemos apegados a eles. Sentimentos e pensamentos ruins, bem entendido. Coisas que nos desgastam e nos consomem, muitas vezes absolutamente à toa, porque não queremos mudar nada em relação àquilo e nem mesmo fará alguma diferença em nossa vida a mudança. Por que então tudo isso? Parece que pensamos demais...

Hoje acordei com a disposição de dar um basta em várias coisas que andavam me incomodando. Apenas com esse pensamento, senti que até meu tom de voz mudou, recuperando um pouco da sua alegria habitual. Nem sei se eu deveria estar falando disso aqui. Mas como neste blog tudo tem a ver com textos, é óbvio que o assunto me fez ir atrás de mais um texto guardado nos meus alfarrábios, um daqueles que de vez em quando é sempre bom reler.
Pena que, como em milhões de textos divulgados na era da internet, não sei o autor. Se alguém souber, a informação é bem-vinda.

Encerrando um Ciclo

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos - não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?
Você pode passar muito tempo se perguntando porque isso aconteceu.
Pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.

Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seu marido ou sua esposa, seus amigos, seus filhos, seus irmãos, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que vc está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco. O que passou não voltará; não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.

Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordaões, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos. Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração - e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem seu lugar.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto, às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como vc sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de empregos que não têm data marcada para iniciar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal". Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.


Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.
Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

domingo, março 13, 2005

Fechando as cortinas do final de semana

Mais que Isso
Ana Carolina/Chico César

Eu não vou gostar de você porque sua cara é bonita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma música que eu gostei
E botei numa fita

Eu não vou gostar de você porque você acredita
O amor é mais que isso
O amor talvez seja uma coisa que até nem sei
Se precisa ser dita

Deixa de tolice, veja que eu estou aqui agora
Inteiro, intenso, eterno, pronto pro momento e você cobra
Deixa de bobagem, é claro, certo e belo como eu quero
O corpo, a alma, a calma, o sonho, o gozo, a dor e agora pára

Será que é tão difícil aceitar o amor
Como é e deixar que ele vá, e nos leve prá todo lugar
Como aqui

Será melhor deixar essa nuvem passar
E você vai saber de onde vim, aonde vou
E que eu estou aqui


Por que essa letra? Sei lá. Escutei o CD (Estampado), depois de séculos, e essa não é a minha predileta; aliás amo o CD e adoro quase todas as músicas...muitas delas com letras dignas de serem guardadas para a posteridade em um post (por exemplo, Pra Rua me Levar, que já até uma vez coloquei no Orkut, num daqueles tópicos do tipo "que música traduz o que você está vivendo agora").
Talvez ela esteja aqui porque fala sobre viver as coisas como elas são. Talvez porque diga que o amor pode se mostrar de múltiplas formas. Talvez porque a vida vive nos aprontando situações com as quais não sabemos lidar, e simplesmente não há respostas certas ou erradas - não se pode esperar de ninguém "isso" ou "aquilo". Talvez pra me mostrar que estou certa no que penso...ou não.

terça-feira, março 08, 2005

Dia Internacional da Mulher

Só por isso, hoje colocarei poemas de mulheres. Não sobre mulheres, mas (na verdade, só reparei nisso agora!) sobre o amor, que acaba sendo sempre "o" assunto, tão íntimo e tão parte de nós.
A coisa mais bonita que li sobre o dia de hoje, aliás, foi o seguinte:
"Eu aprendi a amar com a minha mãe, a ler com a minha avó, a brincar com a minha sobrinha, a viver com a minha mulher, a sonhar com a minha filha. É com as Mulheres que você aprende a ser Homem! Dos Homens eu aprendi o que Elas ensinaram a eles. Da Vida eu aprendi o que vida aprendeu com Elas." - Ricardo Jordão Magalhães, fundador e presidente da BizRevolution (www.bizrevolution.com.br). Eu recomendo a leitura da newsletter dele, por sinal.

Beijos a todas as mulheres e a todos os homens que fazem nossa vida mais feliz.


Se me quiserem amar, terá de ser agora:
depois, estarei cansada.
Minha vida
Foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e fixo:
assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiserem amar, terá de ser hoje:
amanhã, estarei mudada.

Lya Luft


CASO

Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não

pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão

talvez não

talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem

ou não.

Bruna Lombardi


ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixa esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não...neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles


To wait an Hour - is long
If Love be just beyond
To wait Eternity- is short
If Love reward the end

Emily Dickinson


UM JEITO

Meu amor é assim, sem nenhum pudor.
Quando aperta eu grito da janela
- ouve quem estiver passando -
ô fulano, vem depressa.
Tem urgência, medo de encanto quebrado,
é duro como osso duro.
Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:
quero é dormir com você, alisar seu cabelo,
espremer de suas costas as montanhas pequenininhas
de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta.

Adélia Prado